A Tirania das Aparências
Certa vez ouvi um amigo muito engraçado e brincalhão
dizer: “Se você não é rico e nem bonito, seja pelo menos
engraçado, assim as pessoas vão te aceitar”. Apesar
da brincadeira, as palavras deste amigo apontavam para
uma realidade muito atual: o ser humano tem uma necessidade
enorme de ser aceito e percebido pelos outros. E para
que isso seja possível vale tudo, inclusive parecer
ser algo ou alguém que, na verdade, não se é.
Nunca na história deste país, como diria o presidente
Lula, as aparências exerceram tamanha tirania sobre
as pessoas. Segundo o médico psiquiatra Roberto Shinyashiki,
“Antes, o ter conseguia substituir o ser. O cara mal-educado
dava uma gorjeta alta para conquistar o respeito do
garçom. Hoje, como as pessoas não conseguem nem ser
nem ter, o objetivo de vida se tornou parecer. As pessoas
parecem que sabem, parece que fazem, parece que acreditam.
E poucos são humildes para confessar que não sabem”.
Em uma sociedade que supervaloriza as aparências estamos
cercados por pessoas que vivem em busca da aparência
perfeita. Um dos únicos setores que não sentiu a crise
econômica no Brasil e no mundo foi a indústria dos cosméticos.
Basta olharmos para alguns apresentadores de televisão
para perceber que já se entregaram ao botox, a tintura
de cabelo e as plásticas que tentam tornar um sujeito
de 60 anos com cara de 40.
Mas a tirania das aparências não atinge apenas a estética
do corpo, as pessoas vivem representando papéis de personagens
que gostariam de ser, mas não são. É como dizia uma
antiga propaganda do jornal O Estado de S. Paulo, “Você
tem conteúdo mesmo ou só faz cara de quem tem?”. Em
outras palavras, nem tudo é realmente o que parece ser!
A tirania das aparências determina o que é aceito, o
que é bonito, e quem é bem sucedido em nossa sociedade.
Mas como poucos conseguem atingir os padrões de aparência
desta sociedade, tem muita gente infeliz que vive escravizada
por esta ditadura.
Como a menina que sonha ser a Gisele Bündchen, mas está
lutando contra a anorexia; o executivo querendo ser
o Roberto Justo, mas que abriu mão da ética para chegar
lá; a atriz que chega ao topo não por causa de sua competência,
mas por causa da sua beleza estética e a intimidade
que tem com o diretor; ou ainda o atleta querendo ser
campeão, mas que se vale de uma força que não é sua
e sim das drogas que o ajuda a chegar na frente.
Mas, o que leva as pessoas a se submeterem a tirania
das aparências?
Segundo o Psiquiatra Roberto Shinyashiki, as pessoas
sedem à tirania das aparências imposta pela sociedade
por causa de três razões: (1) a necessidade de aplausos,
que pressupõe a admiração das pessoas; (2) a necessidade
de se sentirem amadas e percebidas; (3) e a busca por
segurança .
Entretanto, nós não devemos nos render a tirania das
aparências para nos sentirmos amados, aceitos e seguros.
Pelo contrário, só nos sentiremos amados, aceitos e
seguros quando tivermos a convicção que não é por aquilo
que representamos ser, mas por aquilo que realmente
somos. Não precisamos interpretar papéis de personagens
que não têm nada haver conosco. Não precisamos dar respostas
“certas” só porque são as respostas que as pessoas querem
ouvir! Não precisamos disfarçar nossos traços e feições
só para aparecermos mais bonitos na foto.
Eu não estou incentivando você a romper com a sociedade
custe o que custar. Vivemos em uma comunidade e devemos
respeitar algumas regras básicas de conduta e convivência.
Entretanto, não podemos nos tornar escravos da ditadura
das aparências. Não é aquilo que temos ou aparentamos
que reflete quem somos, mas aquilo em que acreditamos.
São nossos valores que nos fazem pessoas admiráveis,
principalmente, por Deus.
Deus nos aceita do jeito que somos e quer se relacionar
conosco e não com aquilo que aparentamos ser. Ele nos
vê sem maquiagem e sem interpretações de personagens.
Não adianta nada interpretar e viver de aparência, pois
não podemos enganar a Deus.
“Ele lhes disse: ‘Vocês são os que se justificam a si
mesmos aos olhos dos homens, mas Deus conhece o coração
de vocês. Aquilo que tem muito valor entre os homens
é detestável aos olhos de Deus’”. Lucas 16.15 A sociedade
valoriza a riqueza, mas Jesus veio para os pobres de
espírito.
A sociedade a valoriza a beleza exterior, mas Jesus
vê o coração das pessoas. O ser humano valoriza os fortes,
mas Jesus acolhe o cansado e sobrecarregado.
Na história bíblica de Israel podemos perceber bem isso.
Quando Deus enviou o profeta Samuel ungir um Rei dentre
os filhos de Jessé, o profeta se surpreendeu quando
percebeu que Deus não havia escolhido nem o mais alto,
nem o mais forte, e nem o mais bonito, mas o menor dentre
os sete filhos.
“O SENHOR, contudo, disse a Samuel: ‘Não considere sua
aparência nem sua altura, pois eu o rejeitei. O SENHOR
não vê como o homem: o homem vê a aparência, mas o SENHOR
vê o coração’.” 1 Samuel 16.7
Portanto, quem disse que a empregada doméstica que criou
seus três filhos dando a eles boa educação não é bem
sucedida? Ou quem determinou que o magro, o gordo, o
baixo, o alto de mais, ou o pobre não são felizes?
Quem determina que o que mora na periferia vale menos
do que aquele que vive nos condomínios de alto padrão?
Ou que o nasceu no hemisfério norte é mais nobre do
aquele que nasceu no hemisfério sul?
Como dizia uma frase que encontrei certa vez em uma
revista na sala de espera de um consultório médico,
"A história não é feita por reis e presidente,
mas por pessoas ordinárias que fazem coisas extraordinárias”.
Para Pensar
Não se deixe abater por não preencher os padrões estéticos
que a sociedade estipulou como certos, nem por não ter
alcançado o cargo mais alto em sua carreira.
Procure sempre se desenvolver profissionalmente e cuidar
de seu corpo e saúde. Entretanto, não permita que a
tirania das aparências roube de você a liberdade que
tem de ser quem você realmente é. Lembre-se de que Deus
vê o seu coração e Ele te aceita e te ama do jeito que
você é. E a partir do que você é Ele pode te fazer alguém
cada vez melhor.
Adrien Bausells